Otimizando o tempo livre

Resenha de:
DE MASI, Domenico. O Ócio Criativo: Como os lírios do campo.
Rio de Janeiro: Editora Sextante, 2000, pg. 13 a 40.

 “Como os Lírios do Campo”, primeiro capítulo do livro “O ócio criativo”, do sociólogo e escritor italiano Domenico de Masi, demonstra através de respostas aos questionamentos realizados pela entrevistadora Maria Serena Palierei, que além do trabalho duro, o ócio, no sentido puro da palavra, propiciou grandes evoluções e continua sendo um importante instrumento para a o desenvolvimento da sociedade.

O capítulo destaca que o ócio pode ser considerado algo muito bom, mas somente se interpretado de acordo com o real sentido da palavra. Para os gregos, por exemplo, tinha um sentido estritamente físico, pois trabalho para eles, era tudo aquilo que exigia esforço físico, com exceção do esporte.  E nesse contexto, aquele que realizava o trabalho, era considerado cidadão de segunda classe. As atividades não-físicas, como: a política, o estudo, a poesia, a filosofia etc. eram atividades “ociosas”, e dignas somente dos cidadãos de primeira classe.

Dando continuidade as suas colocações, o autor explica que na sociedade industrial, as pessoas movimentavam muito as mãos e os pés, e na maioria das vezes, executando atividades repetitivas, tornando as atividades de certa forma, automáticas. Sem a exigência de esforços intelectuais. Situação que viera a mudar somente no ciclo pós-industrial, onde cada vez mais, o trabalho físico e em alguns casos até mesmo atividades intelectuais, passam a ser executados pelas máquinas. Restando aos seres humanos, seja no trabalho ou no ócio, a interessante tarefa de ser criativo. Entretanto, sempre ressaltando a dificuldade que nós seres humanos temos de alterar nossos hábitos e aderir ao ócio criativo.

Para reforçar suas colocações, DE MASI cita o fato de o homem ter levado aproximadamente setenta milhões de anos para aprender a andar ereto, a aprimorar a utilização das mãos, a desenvolver a linguagem e a educar e transferir a experiência adquirida a seus descendentes.  Só então em torno de setecentos mil anos atrás, começa utilizar animais como os cães para puxar trenós e também a desenvolver novos instrumentos de caça, como o arco e a flecha.  A partir daí, cita a descoberta das sementes, a troca da caça pela domesticação dos animais, a criação da roda depois das grandes eras glaciais, a descoberta da astronomia, o surgimento do comércio, da democracia, avançando até o ciclo industrial e enfim, aos dias de hoje.  Deixando claro que as grandes evoluções vieram somente quando o homem passou a transferir seu esforço, seja para animais ou máquinas, ou quando da otimização do trabalho (como no exemplo em que cita a troca da caça pela criação), fazendo uso da criatividade.

De um modo geral, o autor demonstra seu profundo conhecimento de sociólogo quanto à evolução humana. Inclusive sendo muito assertivo, diga-se de passagem. E ao demonstrar tal evolução, justifica a citação do “Evangelho segundo São Matheus” que dá título ao capítulo, onde diz: “Aprendei dos lírios do campo, que não trabalham e nem fiam. E no entanto, eu vos asseguro que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como um deles”. Em outras palavras, e ele procura deixar claro que a labuta é muito importante, mas que a ociosidade criativa é essencial para o continuo aprimoramento e a inovação, e para que os mesmos ocorram cada vez mais rápidos. Trata-se de uma obra que ao mesmo tempo em que provoca o leitor a refletir sobre o conceito de ociosidade, é muito agradável e rica em fatos históricos. Vale a pena conferir!

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